Pendulum reúne obras construídas linha a linha, em acrílico e tinta-da-china, aplicados em aguadas translúcidas sobre papel nepalês feito à mão. A geometria é um ponto de partida, e não um destino fixo. Cada obra desenvolve-se por acumulação, num processo lento e repetitivo em que o desenho inicial é continuamente refeito pelo gesto, pelo tempo e pela própria resposta do material. O que daí emerge difere, muitas vezes, de forma acentuada da geometria com que começou.
No início de cada obra está um desenho: uma estrutura concebida antes da execução, herdada de um modo de pensar enraizado na arquitetura. Porém, o que num projeto seria uma linha fixa torna-se aqui um campo aberto: a mesma linha, repetida e sobreposta, nunca é exatamente idêntica. A mão pousa e ergue-se; os intervalos entre dois traços abrem ou fecham. A estrutura inicial não se mantém intacta e cede gradualmente ao próprio processo. Em vez de cumprir um plano predeterminado, a forma final regista o percurso pelo qual evoluiu.
O papel não funciona como um suporte neutro. As suas fibras, a sua espessura e as suas irregularidades moldam ativamente aquilo que se vê: o pigmento é absorvido de modo desigual, a luz assenta de maneira diferente em cada zona, e o gesto ajusta-se à resistência do próprio material. O papel feito à mão não recebe a tinta passivamente; responde, e essa resposta passa a fazer parte da obra. O que à primeira vista poderia parecer geometria revela-se ser um campo de variação tonal.
A cor constrói-se em camadas sucessivas. As aguadas translúcidas deixam passar a luz e sobrepõem-se sem se anularem, de modo que cada zona conserva a memória das aplicações anteriores. Nunca se impõe um contraste: a profundidade nasce da sobreposição, não da oposição. A superfície aproxima-se do monocromático sem nunca o ser verdadeiramente, animada por variações subtis que só se revelam a um olhar demorado.
As composições percorrem passagens da luz para a sombra e da sombra para a luz: um movimento contínuo e regular que o título reflete. Pendulum não descreve uma imagem, mas um comportamento: uma oscilação que regressa sempre ao mesmo eixo sem nunca repetir exatamente o mesmo trajeto. É este jogo entre regularidade e desvio, repetição e diferença, que confere coerência à série.
A cor permanece contida, por vezes mantida no limiar da visibilidade. As diferenças são ténues e revelam-se apenas a quem se demora. Nesse sentido, as obras pedem ao observador algo próximo daquilo que a sua feitura exigiu: o que foi feito devagar revela-se devagar, e o tempo de fazer e o tempo de olhar espelham-se um no outro.
Cada peça guarda o vestígio da sua própria construção. Mais do que um objeto a interpretar, oferece uma experiência de atenção: um espaço em que estrutura e variação, precisão e contingência, se mantêm em tensão.
Bruno Castro Santos (n. 1972) formou-se em arquitetura em Los Angeles e na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, tendo exercido em Portugal até 2009. Desde então, dedica-se exclusivamente à sua prática artística. Divide o seu tempo entre Lisboa e Miami.
